Programa de Reabilitação Cardiovascular

Os resultados do Programa de Reabilitação Cardiovascular do Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN) - Hospital Pulido Valente estão à vista e as mais-valias são indiscutíveis. Constituído por uma equipa multidisciplinar que se empenha na melhoria da qualidade de vida do doente cardíaco e na prevenção secundária, os profissionais deste programa lamentam apenas que não lhes sejam referenciados mais doentes e alertam todos os médicos para os benefícios desta terapêutica.

Em declarações à Just News, no âmbito de uma reportagem sobre este Programa, o cardiologista Machado Rodrigues, seu coordenador, garante que a Reabilitação Cardíaca (RC) tem grandes benefícios tanto no prognóstico como na qualidade de vida dos doentes cardíacos. 

Lamenta, contudo, que em Portugal a percentagem dos que fazem este tratamento seja ainda muito baixa, entre 5 a 10%, sentindo necessidade de alertar todos os cardiologistas, cirurgiões cardiotorácicos, intensivistas, internistas e médicos de família para o facto de a Unidade de Reabilitação Cardíaca do CHLN e o Centro de Reabilitação Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CRECUL) terem capacidade para receber muitas mais pessoas. Basta que sejam referenciadas.

“Talvez seja por falta de informação! É importante que os médicos saibam que estamos abertos a todos os doentes. É muito simples, devem apenas enviar-nos a nota de alta e, se possível, um eletrocardiograma e um ecocardiograma recentes. Recebemos os utentes, iniciamos a reabilitação e encaminhamo-los, novamente, para o seu cardiologista”, afirma Machado Rodrigues.

O médico mostra-se também disponível para dar formação, por exemplo, em centros de saúde, com o objetivo de que todos os profissionais de saúde estejam informados acerca das mais-valias desta terapêutica e, assim, possam encaminhar os seus pacientes.

Enquanto nos corredores do piso 2 (Serviço de Cardiologia II) um ou outro doente internado, com o devido acompanhamento, dá pequenos passos e nas restantes salas outros, já com alta, fazem exames complementares de diagnóstico ou reabilitação respiratória, o coordenador frisa que o tratamento devia estar acessível a todos os doentes, de norte a sul do País.

 

Um aumento da qualidade de vida em 30 a 40%

A RC é constituída por 3 fases, sendo a primeira efetuada logo após o evento ou o procedimento, dentro do âmbito da Cardiologia ou da Cirurgia Cardiotorácica, e ainda durante o internamento, onde os enfermeiros e/ou fisioterapeutas têm como objetivo autonomizar o doente nas suas atividades de vida diária, como o reinício da marcha, por exemplo.

Na fase 2 faz-se a reabilitação cardiovascular propriamente dita, de forma a melhorar a capacidade física e respiratória, mas também a qualidade de vida e o prognóstico. 

Segundo refere, esta deve iniciar-se o mais precocemente possível, cerca de 8 a 15 dias após o término da fase 1. “Normalmente esta reabilitação é feita progressivamente durante três meses, três vezes por semana e durante 36 sessões e é constituída por exercícios respiratórios e físicos, controlados pelos cardiologistas, os fisiatras e os vários técnicos”, menciona.

 

Estimular para a prática do exercício físico

Depois de no piso 2, com a ajuda das enfermeiras de reabilitação, todos os doentes fazerem os seus exercícios respiratórios, cada um ao seu ritmo, o grupo desce até ao ginásio da Fisiatria, para continuar os tratamentos.

Na fase de aquecimento, correm, cada um a seu ritmo, fazem passadeira ou bicicleta e vão respondendo às perguntas da fisioterapeuta: “Como é que devemos respirar?” “O que é o diafragma?” “Onde fica?”.

A fisiatra Sandra Miguel também lamenta o facto de os colegas das outras especialidades e instituições referenciarem poucos pacientes. “Penso que talvez seja por falta de informação. Devido a alguns medos que os próprios médicos sentem, porque têm pouco conhecimento sobre a área e têm receio que o doente descompense”, acredita. Mas “está provado que a RC reduz a mortalidade e a morbilidade e a taxa de reinternamentos, são só vantagens.

“É uma pena, temos de otimizar”, afirma, recordando que existem mais centros de RC no norte do País.

Sandra Miguel explica que o papel da MFR é estimular o doente à prática de exercício físico, contribuindo para a diminuição do sedentarismo, um dos fatores de risco da doença cardiovascular:

“A maior parte destas pessoas é sedentária e o nosso objetivo é estimulá-las para a prática de exercício físico. Além disso, na fase pós-operatória ou pós-angioplastia, têm muitos medos, como subir escadas, pegar em objetos pesados, ou simplesmente andar. O nosso papel é desmistificar, ou seja, tornar o doente mais seguro e mostrar-lhe que pode, progressivamente, voltar à vida normal”, menciona.

 

Capacidade instalada, não esgotada

Para controlar e, de preferência, acabar com os possíveis medos, a equipa desenhou um programa de exercício em ginásio monitorizado. O traçado eletrográfico decorre durante toda a sessão, são feitos registos de tensão arterial, de frequência cardíaca e de saturação de oxigénio. 

“O doente sente-se seguro e muito envolvido. Essa confiança faz com que, a pouco e pouco, consiga ver que pode fazer a sua vida normal”, diz Sandra Miguel, que trabalha neste hospital há 13 anos e que há 5 está envolvida no projeto, ou seja, ainda antes de Machado Rodrigues ter assumido a sua coordenação.

 

CRECUL: manutenção e prevenção secundária

A fase 3, também denominada de manutenção, é mais recente. Criada há menos de dois anos, tem como objetivo manter o que foi conseguido nas fases anteriores e fazer prevenção secundária, evitando que novos eventos ocorram. 

Esta manutenção decorre por um período de um ano, em sessões de uma hora, três vezes por semana, no Centro de Reabilitação Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CRECUL), exatamente nas instalações do Estádio Universitário, partilhando-as com os praticantes que usam o ginásio, estudantes e todas as pessoas inscritas.

 

Machado Rodrigues assume as funções de diretor clínico e Helena Santa-Clara é a diretora do programa da componente de exercício físico, que explica à Just News como tudo funciona. Fomos também recebidos por Rita Pinto, doutoranda da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) e responsável pela sala de exercício, e Vitor Angarten, doutorando daquela Faculdade.

No ginásio podem ver-se vários utentes com doença cardiovascular que foram referenciadas pela Cardiologia, e que estão em situação compatível com a prática deste tipo de prescrição, a fazer a sua componente de reabilitação do exercício físico, em simultâneo com os restantes inscritos, contudo, sempre monitorizados e conduzidos por fisiologistas do exercício.

Aliás, verifica-se que os técnicos presentes na sala têm camisolas com cores e indicações distintas: Staff e Reabilitação Cardíaca.

Helena Santa-Clara explica que os fisiologistas são doutorandos da FMH, onde é professora, o que acaba por dar ao CRECUL “um caráter de muito rigor e de investigação aplicada. No fundo, estamos também a testar protocolos de exercício, sempre salvaguardados e aprovados pelas comissões de ética”.

Descobrir de forma segura "até que nível de esforço a pessoa pode ir"

Ainda antes de reencontrarmos Vitor Angarten, fisiologista do exercício e doutorando da FMH, no ginásio do Estádio Universitário, conhecemo-lo numa das salas de exames complementares do Hospital Pulido Valente, até onde se deslocou para realizar uma prova de esforço com consumo de O2 a um dos doentes cardíacos.

“Este exame vai dar-nos os parâmetros de segurança para a prática de exercício. Desta forma, é possível descobrir de maneira segura até que nível de esforço a pessoa pode ir e descobrir intensidades relativas para a prática do exercício físico”, explica.

E desenvolve: “A prova de esforço cardiopulmonar é indicada para pacientes com insuficiência cardíaca e outras patologias pulmonares. Contudo, esse teste no HPV é realizado também em mais patologias cardíacas, como a doença das artérias coronárias”.

De nacionalidade brasileira, Vitor Angarten é licenciado em Educação Física e está em Portugal há cerca de 3 anos, estando quase a terminar o seu doutoramento em Atividade Física e Saúde pela FMH.

Está a gostar do curso e do país, “gostaria de poder ficar e aprimorar mais ainda a aprendizagem”, mas, quando terminar, terá de voltar para a sua terra natal e aplicar o conhecimento adquirido por cá.

Segundo refere, a Educação Física está a ganhar muito espaço na área da Saúde, fazendo-se assim uma maior observação no contexto da atividade física, tanto da parte do movimento como da vertente fisiológica.

“Acreditamos que toda a gente pode fazer exercício físico, mas cada um tem o seu limite. De forma segura, o que tentamos fazer é, independentemente da patologia, proporcionar um estilo e uma qualidade de vida melhor para todos por meio do exercício físico, que auxilia na autonomia diária. É esse o meu objetivo, com este doutoramento”, conclui.

 

Fonte: www.justnews.pt/

Publicado em 26 de fevereiro de 2018 - 19:27
 

 

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